Vacinar ou não vacinar contra a febre amarela?

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Casos de febre amarela vem acontecendo e preocupando muita a população. Recentemente vimos relatos na mídia sobre eventos adversos a vacina, como é o caso de um jovem em SP. O rapaz de 14 anos veio a óbito após receber uma dose da vacina de febre amarela (um pouco mais de 10 dias após a vacinação).

Ao se queixar de dores abdominais, o jovem foi levado ao hospital para receber atendimento. A suspeita de reação vacinal logo foi descartada, afinal não foi encontrada nenhuma alteração no fígado. Leishmaniose (infecção parasitária), Linfoma e Leucemia foram as suspeitas dos médicos, porém não houve tempo para confirmar o que de fato ele tinha. No dia 29 ele chegou a óbito.

Apesar de o atestado de óbito conter a descrição “leucemia/reação vacinal?”, os especialistas afirmam que a vacina é altamente segura e que reações adversas à vacina (dores no corpo, dores de cabeça e febre), podem afetar entre 2% e 5% dos vacinados nos primeiros dias após a imunização. Já as mortes são ainda mais raras.

Com a chegada do carnaval e consequentemente o aumento de viagens, essa e outras informações vem preocupando os cidadãos.

Para sanar essas dúvidas, entrevistamos a Dra. Silvana Gazola Santucci (médica infectologista da Bravacinas) CRM SC 9377, e ela nos respondeu algumas perguntas que podem nos ajudar a esclarecer esses assuntos.

1. Vou para o Rio de Janeiro no carnaval tenho de me vacinar?

Os casos de febre amarela que vem acontecendo nos estados de MG, SP e RJ não são adquiridos nas cidades. A doença vem sendo contraída por pessoas que vivem em regiões de matas ou se deslocaram para lá. Por exemplo no estado de São Paulo, o município de Mairiporã  que vem registrando o maior número de casos, está localizado na serra da Cantareira, com muitos sítios, chácaras e áreas verdes, é um tradicional reduto de festas de casamento na Grande São Paulo, além de destino de turistas que buscam contato com a natureza.

No Rio de Janeiro, as 12 cidades que registraram casos de febre amarela como Valença, Teresópolis etc, estão mais próximas à divisa com estado de Minas Gerais e não na capital em ambiente de matas. Portanto, se você for para a cidade do Rio de Janeiro curtir o carnaval, não precisa ter medo de pegar febre amarela na área urbana. Mas se você se aventurar por cachoeiras, sítios, etc, é prudente que você esteja protegido, por que nós notadamente vivemos uma expansão da doença para o estado de São Paulo e Rio de Janeiro que se iniciou no final de 2016 em Minas Gerais e Espírito Santo. Em 2017 foram registrados aproximadamente 800 casos e isto é algo novo na história recente da febre amarela.

Confira os municípios com recomendação de vacina contra febre amarela. Se ainda ficar com dúvidas, consulte este infográfico disponibilizado no portal do G1.

2. Mortes após vacinação sobre febre amarela vem sendo relatadas pela mídia diariamente. O que podemos concluir?

A vacina contra febre amarela é considerada segura e um instrumento valiosíssimo para impedir a doença há muitos anos. A vacina pode causar evento adverso grave sim, mas estes casos são raros. O problema é que dentre as milhões de pessoas que estão sendo vacinadas algumas adoecem gravemente. As pessoas logo pensam que foi pela vacina, quando esta hipótese (que deve ser investigada profundamente e demora pra termos estas respostas) deve ser considerada uma hipótese de exceção. Se você não estiver vacinado contra a doença e tem medo de tomar a vacina, você não deve ir para áreas com recomendação de vacinação!

3.Quais as reações causadas pela vacina contra febre amarela?

Em geral, as reações mais comuns e que ocorrem até 10% dos pacientes são dores de cabeça e reações no local de aplicação como dor, vermelhidão, hematomas, e inchaços; e menos comuns são febre, cansaço náuseas, diarreia, dores musculares e vômitos.

As reações graves podem ser a inflamação no sistema nervoso central (encefalite, ou mielite, Guillain Barre) geralmente os pacientes se recuperam e a doença viscerotrópica (hepatite, hemorragias, choque). Estes eventos são extremamente raros mas foram mais comuns em menores de 6 meses, maiores de 60 anos e com pessoas que tiveram alguma doença que altera o nosso sistema imune. É muito importante que pessoas que vivem ou viajam para áreas de recomendação de vacinação e apresentem alguma contraindicação, sejam aconselhadas por um profissional capacitado para não estabelecermos falsas contra-indicações colocando em risco uma pessoa de adquirir febre amarela não recomendando uma vacina que poderia ser administrada ou expondo-a a um risco de evento adverso.

4. Quem não deve se vacinar contra febre amarela?

Existem alguns casos onde não é recomendado fazer uso da vacina.

A. Imunossupressão: Esta é principal contraindicação. Isso significa que as pessoas que por alguma razão estejam com o sistema imunológico comprometido por quaisquer doenças ativas que cursem com imunossupressão e/ou pelo uso de quaisquer medicamentos que levem à imunodepressão – como quimioterápicos ou corticoides em altas doses –  não devem receber a vacina.

B. Gestantes: APENAS as gestantes que moram em área de extremo risco, localizadas em 75 municípios do Brasil, devem tomar a vacina. Não há orientação para vacinar as gestantes que NÃO residem nestas áreas.

C. Alergia Grave ao OVO: Pessoas que tem alergia importante e grave ao ovo, não devem receber a vacina.

D. Bebês com menos de 6 meses de idade: O vírus da vacina pode causar problemas neurológicos nos bebês pequenos. As mães que amamentam bebês com menos de 6 meses de idade também NÃO devem receber a vacina, a não ser em situações de risco muito específicas, uma vez que depois da vacina estas mães devem ficar pelo menos 10 dias sem amamentar.

O leite deste período deve ser desprezado, o que é uma pena. Por isso, recomenda-se que mães lactantes de bebês com menos  de 6 meses, sejam individualmente  avaliadas para que se possa ponderar o risco e o benefício da vacina ante a interrupção da amamentação.

5. Vivemos um momento de escassez de vacinas contra febre amarela. O que a senhora tem a dizer sobre isto?

As demandas para vacinar a população contra febre amarela são muito maiores do que os laboratórios conseguem produzir. Atualmente a falta de vacinas no sistema privado e em Postos de Saúde públicos cria um desafio que vai ser amenizado somente daqui a alguns meses, já que se pretende aumentar a produção na FIOCRUZ e com parcerias para outros laboratórios, mas isto demora um pouco.

No Brasil, o sistema público é abastecido pelo laboratório de BioManguinhos FIOCRUZ, que leva de 2 a 6  meses para produção de um lote. O sistema privado é abastecido pela SANOFI-PASTEUR numa unidade da França, diz que são necessários 22 meses para a produção de um lote. Este ano a FIOCRUZ vai entregar ao Ministério da Saúde aproximadamente 48 milhões de doses e a pasta decidiu fracionar a dose em alguns municípios, pois surtos em ambientes urbanos de Angola e no Congo nos últimos anos foram controlados com o fracionamento de doses.

O fato é que a febre amarela tem sido negligenciada e as autoridades de saúde não previram um surto desta monta. O desastre de Mariana foi inédito, nunca em anos anteriores chegamos ao grau de alteração ambiental como vividos hoje aliados a outros fatores como deslocamento das populações de primatas e etc. Até que a população não esteja imunizada, não adianta sair exterminando macacos que tem sido vítimas indefesas do vírus e de humanos.

Esperamos ter esclarecido algumas dúvidas neste post. Mas se ficou com alguma dúvida, entre em contato conosco.

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